Passageiro

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É um corredor que divide os lados.
Um corredor móvel, uma passarela sobre rodas.
Passarela onde quem desfila corre atrás de um caminho.
Aqui desfilam infinitos sonhos, incontáveis corações cheios de suas vidas.
Em cada ator deste filme moram dores, alegrias, amores e fantasias.
A viagem de cada um me faz viajar em quantas diversas histórias perambulam pela cidade.
Um cidadão que corre atrás do seu sustento, outro que morre por dentro pelo seu filho que está detento.
Uma dona Maria que já se prepara para a tábua de passar roupa e outra que está pensando em seu marido que arrumou outra.
O adolescente que só pensa em pernas, bundas e se envolver, outro que, sem tempo, lembra de seus irmãos que não têm o que comer.
Um ônibus, a passarela de cada dia, onde várias histórias desfilam a cada viagem.

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Memória rouca

Tem árvore, lua e drama.
Tem dança no meio da semana
O dia, quente e seco.
A noite, clara, pouco vento.

Em cada pedra do chão duro,
Em cada vazio escuro.
Vários degraus, os andares,
Lindos dentes e olhares.

Tapete vermelho e fino,
Melodia doce de violino.
Um lençol e dois travesseiros,
Na cama a vela e o timoneiro.

Clareia a manhã o sol aberto,
Um sonho, um futuro incerto.
Todo aroma preso na roupa,
É pouco na memória rouca.

Planta a plantinha

Rosinha, filha de Cumadi Mariinha
Passeava pelas divisa da Terrinha
E achou na beirada da cerca,
Uma planta jeitosa e lindinha.
Pegou a planta com muito carinho
Olhou e olhou, cheirou e sorriu.
Florosa pelo caminho,
Saltitante de alegria, saiu.

E o sol vinha e ia
A lua ia e vinha
E a planta plantinha
Verde ia, para cima ia.

Cumadi Mariinha vendo o amor de Rosinha
Pela linda plantinha.
Dizia, todo santo dia,
Planta fia, planta a plantinha.
Rosinha dizia: planto não.
Caso que quero ela comigo.
Se eu cortar as raiz toda tardinha
Ela fica  sempre miudinha.
E carrego ela comigo dentro da minha bolsinha.

Aquela Minha

Caminho na noite, avenida vazia.
Passo sim, passo assim.
Em algum lugar, ela vigia

De todos os lados, nada de vida.
Ninguém lá e ninguém cá.
…Suspendo olhar, espia-me atrevida.

Linda e leve.
Clara e elegante.
Como se atreve?
Viver tão distante!

Procuro outra vez
E, lá, continua.
Bela, imponente e doce
Minha querida Lua.

Explicando

– Ei, como vai?
– Não vou… sendo muito bem entendido.
– Para onde?
– Caminhando para o oeste… de quem vem do leste.
– Com quem?
– Com um monte de letras… músicas, fotos e pedras.
– Pedras para quê?
– Para destruir… qualquer buraco fundo.
– E quando volta?
– Semana que vem… de muito longe sem peso no lombo. A pé.
– Ah, entendi. Semana que vem, então?
– É a então. O semana que venha.
– Ah, sim. Compreendo. Posso fazer mais uma pergunta?
– Até duas… horas.
– Sempre vem por aqui?
– Não, quase nunca… vou embora!

Vento…

Ei, Vento, meu amigo!
Volte, balance as árvores e deite as folhas pelas ruas.
Sinto falta do teu carinho.
Do seu suave compasso.
Neste calor, longo caminho, sem ti me embaraço.

Ao beijar-me, lembrarei dos prantos,
Cantos, santos, risos, brilhos, gestos, encantos.
Ao tocar-me, viajarei nos braços,
Passos, espaços, retiro, escondo, volto, laços.

Tu que és forte e destemido,
Desbrava o desconhecido,
Em suas aventuras pela eternidade
Traz pra mim, clamo, o antídoto da saudade.

Coisa de criança

Vinha eu mexendo os pés em forma de oitos no fundo da carroça do Nino quando passei na porta dum buraco de mata.

Desde criança que gosto e regosto de vortear, abrindo mata gostoso.

Pisar folha seca e quebrar galho fino.

Ê… Que o olho até tilintou. Beleza!
Dei logo um pulo e um brigaaado, Sô Nino.
Olhei de olho esquerdo a estrada que enroscava a carroça e de olho direito o mato em que eu ia me enroscar.
Ajeitei o calção e pisei o chinelo de dedo com vontade.

Cuspi no chão e aprumei o esqueleto. Olhei pra baixo com a cabeça e pra frente só com os olhos. Sabe como é né?

Encarei divera. Topei cipó, embiquei toco de árvore, arranquei espinho com o braço, mas cheguei.

Água limpinha que até doía.

Devia ser boa, devia ser gostosa, devia refrescar, matar a vontade, saciar, devia dar prazer.

Mas deu hora de voltar pra casa! Era hora de menino tomar banho pra jantar e dormir.

E da água, só senti a temperatura.